Não existe mais nenhum lugar onde se possa profissionalmente execrar o mundo. Cioran escreve em o mau demiurgo o que faz a grandeza da solidão: ela permite meditar lucidamente sobre o absurdo do mundo. Isso não está longe de Pascal: o drama, escreve ele no verbete Solidão em seu Glossário, é que o homem não pode ficar só num cômodo sem ligar a televisão: A catástrofe, para o homem, vem do fato de que ele não pode ficar só. Não há uma só pessoa que possa ficar só consigo mesma. Atualmente todos que deveriam viver consigo mesmos se apressam a ligar a televisão ou o rádio... ou digitar no celular, última invenção para nunca estar só.
Georges Simenon era grande conhecedor da alma humana e de seus sombrios recônditos, para ele ninguém conhece ninguém. Há sempre uma distância entre os indivíduos, e em nenhum lugar não se sente melhor isso do que num tribunal onde o juiz, o procurador, os advogados, o acusado, o júri estão cada um em seu mundo, falam uma linguagem diferente e estão irremediavelmente sós.
No século do trabalho em comum, dos prazeres em comum, o homem está mais só do que nunca. O homem não se comunica com o que ele faz. O trabalho, único deus moderno, cessou de ser criador. O trabalho sem fim, infinito, corresponde à vida sem finalidade da sociedade. E a solidão que ela engendra, solidão confusa de hotéis, dos escritórios, das igrejas e das redes sociais nunca é uma prova que purifica a alma, um purgatório necessário. Ela é uma condenação total, espelho de um mundo sem saída.
