6.1.26

Noite


Nenhum deles está completamente vivo. Todos já começaram a morrer. Essa pobre gente não só compra coisas a prestações como também morre a prestações. A Morte manda um de seus anjos bater em cada porta todos os dias, para fazer a cobrança. O que varia é o prazo da dívida de cada um. O plano do negócio é o mesmo. O cancerzinho começa como um tímido botão e depois se vai abrindo — e as mãos do mestre tomavam a configuração duma flor — até desabrochar por completo, e mesmo depois de desabrochada, a flor continua a crescer, alimentando-se do resto do organismo, que vai definhando enquanto ela viceja. Ou então é uma artéria que endurece, um rim que vai sendo roído por uma inflamação, uma bela colónia de bacilos que se instala e fica a multiplicar-se nos pulmões... que sei eu! E a cara, meu amigo, como um espelho mágico vai refletindo toda essa tragédia interna, esse desgaste, essa desagregação, esse apodrecimento. Olhe as pessoas que aqui se acham e me diga se estou mentindo. Estão todos morrendo.

Não há mais esperança para ninguém.

Erico Verissimo
1905 - 1975