21.1.26

To the Finland Station


A study in the writing and acting of History

O herói trágico da história de Wilson, em Rumo à estação Finlândia, o último grande romance do século XIX, aquele que ocupa o centro do palco e que se ergue sobre todos os outros, mesmo muito tempo depois de sua morte, é Karl Marx. Pois Marx captou o sonho mais vigorosa e plenamente do que ninguém; lutou incansavelmente com as mais profundas contradições desse sonho em todos os seus trabalhos e viveu, como mostra Wilson, algumas das ambiguidades mais sombrias desse sonho no decorrer de sua própria existência. Pois Marx percebeu, com mais clareza do que qualquer outro pensador burguês, o potencial revolucionário inerente à sociedade burguesa: sua infinita produtividade; sua capacidade de romper a crosta do preconceito arraigado, da estupidez e da inércia; a amplitude de seu raio de visão, a abarcar o mundo inteiro, a avaliar todo tipo de relação humana e forma de vida; sua vontade de crescer e desenvolver-se; seu olhar aberto para o futuro. Ao mesmo tempo, Marx viu - e explicou de maneira definitiva em O Capital - o horror humano que todo esse progresso traz em sua esteira: a burguesia só consegue liberar energia humana destruindo seres humanos, usando-os como matéria-prima, como recursos a serem explorados, atirando-os no monturo da escória quando estão gastos, triturando-os quando atrapalham seu avanço.

A vida de Marx, na interpretação de Wilson, encarna as forças conflitantes que estão no cerne dessa sociedade que ele compreendeu tão bem. Descortinamos Marx em Londres, mergulhado numa pobreza desesperadora, vendo impotente seus filhos adoecerem e morrerem, corroendo-se de ódio contra incontáveis inimigos, capitalistas e socialistas, visíveis e invisíveis, incapaz de trabalhar cooperativamente com quem quer que fosse, explorando cruelmente aqueles a quem mais amava para poder criar sua grande obra e ajudar a por um fim na exploração para sempre, soterrado de culpa pela forma como vivia, mas incapaz de deter a engrenagem interna ou o demônio interior que o impelia insaciavelmente adiante. A caracterização que Wilson faz de Marx é brilhante e provavelmente insuperável, quase shakespeariana em sua grandeza trágica e angústia. Forçado a ferir para criar, Marx, o inimigo supremo da burguesia, destaca-se como um dos autênticos heróis da era burguesa.

Marshall Berman 
1940 - 2013