Os princípios de seu cinema conceitual ou intelectual, Eisenstein os foi buscar no modelo da escrita pictórica das línguas orientais nos anos 20, ele escreve vários artigos relacionando a língua e a cultura japonesas com o cinema, dos quais o mais célebre — O Princípio Cinematográfico e o Ideograma. Um cineasta fundamental, que até hoje persigo. Na verdade, mais um intelectual do que um cineasta. A obra escrita dele é gigantesca e versa não só sobre cinema, mas sobre a cultura inteira. Também fez teatro, também fez ópera, também fez desenhos, escreveu sobre filosofia, escreveu sobre a história da arte. Além disso, Eisenstein antecipou toda a cultura do computador. Ele criou a teoria da montagem vertical. E o que é, no fundo, a montagem vertical? É a montagem não-linear que se faz no computador. A montagem dentro do próprio quadro. Ele tinha um projeto de um filme impossível de ser feito, ou melhor, só possível no meio digital. Chamava-se Casa de vidro, uma história em que cada plano do filme estaria acontecendo num cômodo, sendo todos os planos vistos ao mesmo tempo. Ver o filme era percorrer os labirintos da casa como num videogame. Mais ainda, Eisenstein foi o primeiro a escrever sobre televisão, num texto intitulado “A oitava arte”, em que ele ficava imaginando o que seria uma história construída ao vivo, com os espectadores a vendo simultaneamente.
Arlindo Machado
1949 - 2020
