23.3.26

Dialética da escola-prisao


Muitos dos problemas do ensino formal estão ligados ao baixo financiamento, à dominação por mecanismos de mercado, à mudança da educação pública em educação sob os poderes e valores corporativos militares, a intromissão da indústria cultural e dos conteúdos das redes sociais na vida privada, a hegemonia da música ruim bem como a falta de autonomia do corpo docente. Hoje, mais do que nunca, o professor não é visto como um intelectual.

Reitores de universidades se comportam feito crianças, docentes de carreira “encostaram o burro”, os alunos ora são tratados como meras tábuas rasas, ora como meros clientes e ora reduzidos a bandidos mirins e a aprendizagem inicial é cada vez mais definida por versinhos de música que não enriquece o imaginário dos pequenos. O conhecimento crítico foi completamente relegado para a lixeira de uma sociedade neoliberal que perpetua todo tipo de miséria.

A escola sob a lógica mercantil fragilizou substancialmente o papel do ensino como esfera pública crítica: dos licenciados como intelectuais engajados e dos estudantes como futuros cidadãos críticos. Isso é relevante em estados governados pela direita e extrema-direita e uma educação orientada por diretores e secretários reacionários. É fato hoje que as instituições educacionais não fomentam a investigação crítica, o debate público, o desenvolvimento da consciência iluminista e atos de justiça.

Educar o jovem no “espírito crítico” é proporcionar-lhe conhecimento, argumentação, análise, paixão pela leitura e a responsabilidade social para enfrentar as desigualdades socioeconômicas e socioespaciais. A educação tal como se encontra é anti-intelectual e antimarxista. E isso se torna evidente quando a instituição não consegue resolver os problemas da sociedade, mas está contribuindo para uma crescente divisão entre pobres e ricos.

O ensino tem a responsabilidade de educar os estudantes pela busca da verdade e educá-los a desempenhar uma individualidade moralmente responsável. Quer queira ou não as raízes do ensino são morais e não comerciais. Não se pode deixar que as ideias geridas pela mídia dominante circulem livremente pelo colégio. A banalidade, a vulgaridade e o reacionarismo devem ser banidos do recinto escolar. Por isso que os intelectuais dissidentes são importantes para colocar exigências cívicas, critérios, limites.

Somente a cultura educacional crítica e rigorosamente científica e filosófica pode transformar os estudantes em agentes individuais e sociais e não deixá-los apenas como espectadores e ouvintes descomprometidos e alienados. Não há outra forma de orientar a política para construir uma boa sociedade sem o ensino crítico, caso contrário uma massa de novas gerações será apenas poeira de um exército de mão de obra competindo agressivamente por um salário mínimo.

Nesse contexto, os fundamentalistas irão gerir o que sobrar da democracia e a despolitização será larga. E onde deveria haver ensino, participação, cooperação e camaradagem será regido a espetáculos midiáticos cada vez mais medíocres.

Esse esvaziamento crítico só acontece com a cumplicidade de um corpo docente acrítico e fiel à gramática do mercado e um público ignorante.

É urgente recuperar o ensino como esfera pública crítica, marxista, um espaço seguro onde a razão, a compreensão, o diálogo, a prática de leitura e o compromisso sejam dominantes. Caso contrário os princípios de mercado e a música comercial se tornarão a estrutura e a superestrutura da organização.

É o diálogo crítico sobre a realidade que interessa. Se o aluno não for agente crítico, não haverá regimento capaz de pensar as possibilidades de construir uma boa sociedade ou de um “futuro promissor” para todos. Um bom ensino de qualidade é obrigação cívica.

Um corpo docente fraco, que reproduz o conteúdo da música dominante, se traduz em um corpo docente sem direitos e/ou poder, regido pelo medo e não por uma partilha de responsabilidade e ousadia. Assim, fica suscetível a táticas de barateamento de mão de obra como o aumento da carga de trabalho, bem como a supressão de toda a dissidência. É nesse universo que os fascistas prosperam.