O corretor imobiliário quando vende um apartamento não diz a verdade sobre a cidade e sobre os bairros. Por exemplo, ele bem podia revelar alguns fatos: olha, Porto Alegre é um polo nazista, você sabia? (com o tempo, pesquisando na internet, o residente vai descobrindo o buraco em que o meteram). O corretor não informa que nos bairros pobres as pessoas têm ojeriza aos estudos, à prática de leitura, que a periferia é barra pesada de traficantes, que a galera sem futuro só faz barulho o dia inteiro, fala merda o dia inteiro, fuma maconha o dia inteiro, bebe o dia inteiro. O corretor também não informa que o populacho pobre é eminentemente preconceituoso, não possui respeito algum pelo próximo, só sabe hostilizar, principalmente sobre aqueles que estão cuidando da sua vida e recomeçando uma nova vida com todas as dificuldades possíveis, desemprego, contando moedas para tomar o ônibus para entregar curriculum vitae em livrarias cheias de traças e poeiras - cujos proprietários irão menosprezar a formação acadêmica -, alimentação com orçamento limitadíssimo, tendo de almoçar maçã, cenoura e brócolis, superando isso sozinho e sem nenhum apoio estrutural. Essa hostilização geral o corretor não informa. O síndico do conjunto muito menos ainda. E não adianta relatar formalmente os problemas do condomínio que nada é feito a respeito. A lei de perturbação do sossego, por exemplo, não existe. Populacho inculto não sabe viver em harmonia, não é solidário. Os provincianos destruíram muito rápido o significado substancial de educação. E dizem que os gaúchos são civilizados. Não sei em que bairro. É somente mais outro mito do sul. Os pobres sem instrução fazem o que querem a hora que querem. A favela, infelizmente, venceu, a chucarada se apossou de tudo. Os moleques de pais ausentes querem apenas foder a xota das piranhas, como cantava o vizinho desclassificado e orgulhoso do conteúdo vulgar e ruim da indústria cultural numa madrugada passada.