À tarde, o tenente e eu costumávamos parar o jeep na cerca de grades oxidadas, retirar o assento traseiro, instalarmo-nos junto de uma árvore sob o sossego gordo dos pássaros, um silêncio grande e bom de folhas altas, e fumávamos sem falar porque as palavras se tornavam subitamente desnecessárias como um barco na cidade, um aquário no mar, um fingimento de orgasmo durante o orgasmo, fumávamos sem falar e uma quietude de paz deslizava devagarinho pelas veias a reconciliar-nos connosco, a perdoar-nos estarmos ali, ocupantes involuntários em país estrangeiro, agentes de um fascismo provinciano que a si mesmo se minava e corroía, no lento ácido de uma triste estupidez de presbitério.
António Lobo Antunes
1942 - 2026
