A: Estou a dizer que o consumidor é um verme. Ou seja: um individuo semelhante aqueles organismos muito simples que só tem boca, intestino e ânus. Tais organismos mais não fazem do que ingerir, digerir e expelir.
B: Mas também o chinês comprador das calças esta nas mesmas circunstâncias, pelo menos no tocante a produtor de calças.
A: Há uma diferença. O consumidor é um verme não tanto pelo facto de consumir como pelo de estar convencido, tal como os tais organismos muito simples, de que a sua função é consumir. O consumidor, em suma, encontra-se disponível para o consumo, seja ele qual for, como a minhoca se encontra disponível em relação a qualquer qualidade de terra que passe pelo tubo do seu intestino.
B: Temos então assim o consumidor reduzido a um verme...
A: Se as palavras "verme" e "minhoca" te repugnam, por darem a impressão de estabelecer uma comparação pouco dignificante, digamos antes que o consumidor não passa de um elo de ligação entre a produção e o consumo. Um elo humano, é certo. Mas nem por isso deixa de ser um elo. Também o produtor é um elo, mas nesse a ligação faz-se em sentido oposto: do consumo para a produção. Enfim, poderemos dizer que produtor e consumidor representam, um, a extremidade anterior da já citada minhoca, e o outro... a sua extremidade posterior.
B: Produtor e consumidor? Só eles? E o médico, não? Nem o artista, o operário ou o camponês? Só o consumidor e o produtor?
A: Na palavra "produção" e na palavra "consumo" cabem todos os produtos e mercadorias, mesmo as mais requintadas e extravagantes.
B: De maneira que o homem ocidental sé pensa em produzir e consumir, não é isso?
A: É isso mesmo.
B: E em si próprio não pensa?
A: Esse ele próprio de que estas falando não existe. Ou, melhor: existe apenas nos dois momentos alternados da produção e do consumo. Mas uma vez que o consumo, no fundo, é aquilo que caracteriza verdadeiramente o consumidor (não existe produtor que não consuma, porque, de contrario, morreria de fome, mas existe — e de que maneira — o consumidor que não produz, digamos antes que a finalidade da sociedade moderna é o consumo, ou seja, o esterco.
B: O esterco?
A: Isso mesmo: o esterco. Ou seja: a expulsão, por parte do .corpo, de tudo aquilo que sobra, depois de feita a digestão. As pessoas consomem mais do que podem e a maior variedade de coisas que possível seja; é o consumo o ideal do consumidor e este esforça-se por estar a par do seu ideal. Mas o resultado final é o excremento. A civilização do consumo é uma civilização excrementícia. A quantidade de esterco expelido pelo consumidor é, efectivamente, a melhor prova de que o consumidor... consumiu. Nas cidades modernas, a produção e o consumo, ou seja, o alimento industrial e o excremento que constitui o seu resíduo, andam sempre a par, tal como nas casas modernas vamos frequentemente encontrar a cozinha junto da casa de banho. Afasta-te do centro e vai dar uma volta pelos subúrbios; logo veras as fabricas com os seus barracões e os seus altos-fornos em que se produz; e, não longe das fabricas, veras também os terrenos nus onde são despejadas as imundícies, os detritos, os desperdícios. A cidade consumiu o produto, digeriu-o e defecou os resíduos.
B: Numa grande cidade moderna, contudo, não existe apenas a produção industrial: há muitas e muitas outras coisas, como, por exemplo, a cultura.
A: Pois claro que há a cultura. Livrarias, tabacarias com montes de jornais e revistas, cinema, radio, televisão. Livros condensados, revistas ilustradas, livros de bolso, enciclopédias, antologias, obras de divulgação, traduções. Mas esta cultura é consumida de maneira idêntica aquela por que se pauta o consumo dos produtos industriais. E ingerida, digerida e depois expelida sob a forma de uma enorme e excrementícia quantidade de lugares-comuns. Os omnívoros consumidores da cultura não se nutrem dela: consomem-na, mas continuam a ficar, por assim dizer, em sentido cultural, perpetuamente subalimentados. O consumo cultural produz apenas esterco cultural, nada mais.
Alberto Moravia
1907 - 1990
