6.4.26

Os cus de Judas

Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, os Camilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuramo-los, de bazooka ao ombro, raivosos, nas florestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos connosco, cujos bigodes nos não trepam pelo esófago refluxos verdes de remorso. De forma que as relações sexuais constituem entre nós, percebe, uma violação mole, uma apressada exibição de ódio sem júbilo, a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão, à espera de reencontrarem o fôlego que lhes foge para verificarem as horas no relógio de pulso à cabeceira, se vestirem sem uma palavra, examinarem sumariamente no espelho do quarto de banho a pintura e o cabelo, e partirem, a coberto da noite, ainda húmidos do outro, a caminho da solidão das suas casas. Os que moram a dois, aliás, e dividem com má vontade o edredão e o dentífrico, padecem, de resto, de um isolamento semelhante; ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de rancor que se palpa no ar como a água de colónia das viúvas! Os serões junto à televisão acariciando projectos vingativos de assassínio conjugal, a faca do peixe, a jarra da China, um oportuno empurrão pela janela! Os sonhos minuciosamente detalhados do enfarte de miocárdio do marido ou da trombose da mulher, a dor no peito, a boca à banda, as palavras infantis babadas a custo na almofada da clínica!

António Lobo Antunes
1942 - 2026