Graças ao extraordinário exercício de epistemicídio imposto como condição artística do ruído contemporâneo, os ouvidos dos brasileiros se tornaram menos intelectuais. O condicionamento levou o subdesenvolvido a suportar como algo natural um volume de som bem maior e muito mais barulhento, e não se escuta nenhuma voz da razão, mas a falação da sociedade de consumo sem maturidade. Os sentidos foram embotados, pois é exceção dos ouvidos que ainda fazem distinções sutis entre dó sustenido e ré bemol. Em geral, já não se entende a música assim como não se entende de arquitetura e estrutura. Nesse contexto o ouvido ficou mais grosseiro e o mundo mais feio e hostil aos sentidos desenvolvidos. A expressão do sublime faleceu. Agora a música da lugar à vulgaridade. Mundo feio e burro, sem inteligência criativa, ouvido embrutecido, o olhar deixou também de ser crítico, dos órgãos dos sentidos débeis chegamos à barbárie. Uma sociedade bela jamais existirá e o alienado frui diretamente o que é feio sem entendê-lo. De modo que há na periferia uma dupla corrente de evolução: de um lado uma massa de pessoas incapaz de entender o significado das coisas e de pensar e de outro uma minoria - prestes a desaparecer - cada vez mais exigente, elevada, e delicada mais atenta para o significado da vida e preocupada pelo desenvolvimento da qualidade de vida. A feiura sensorial é dominante na estrutura e na vida privada do subdesenvolvido, por isso busca na música o feio, o repugnante, o popular, o ordinário com satisfação cada vez maior. Espaço para a grande arte encolheu e irá desaparecer, e os ruídos constantes estão em todos os lugares majoritariamente, no polegar de cada alienado, dentro da escola. Uma sociedade dotada de uma razão em comum, baseada no amor, na amizade, na contemplação da vida não será fruto do Brasil. Infelizmente, na periferia do capitalismo não há espaço para uma boa sociedade. Aos olhos do conceito de bem-estar, a periferia é pobríssima e muito frustrada. E a pobreza não inspira no colonizado do terceiro mundo nem mesmo um sentimento de revolta. É uma sociedade desumana. E será assim por muito tempo.
