28.7.07

[Nervuras do silêncio]

Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo comum e objetivo
para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro
isola o leitor da realidade da rua,
que é o sumidouro da vida subjetiva
.

(Augusto Meyer)

...before I sink
into the big sleep,
I want to hear
the scream
of the butterfly

(Jim Morrison)


Há muito tempo que eu me pergunto: do que se faz a prosa poética? Faz-se de e com ausências? De imagens metafóricas? De saberes? De goles de experiências contidas na memória? De fragmentos filosóficos? De instantes intensos?
Será que a Literatura – em geral, e podemos abordar todo o tipo de arte – se alimenta de paixões, fugas e silêncios (além, como é muito teorizado, da própria literatura)? Mistura que pode dar forma ao barro, cuja matéria-prima dará vida – verbo – à coisa? Difícil é delimitar a matéria essencial da literatura. Em suma, diria-se: vida.
Assim, as interrogações acumulam-se ao ler o livro Nervuras do silêncio, de Lindsey Rocha. Pequenos quadros poéticos de carpintaria pintados por dedos de açúcar. Pequenas fugas. Frestas. Frames à lá Kurosawa.
Ao abrir as Nervuras do silêncio, o leitor estará convidado a entrar em movimentos empiristas de um balé onírico de sigilo, dança que nos retira do mundo circundante e nos transporta para as pérolas da vida subjetiva. Os textos poéticos são como conchas recolhidas à beira da epiderme. Águas vivas da noite ao som de Debussy. Hieróglifos, imprevisíveis retornos.
Há quem se engane em perder todo o tempo do mundo na confecção de florista, no arranjo estético do sentido, pois por trás das nervuras que sopram a nuca, os textos partem para uma espécie de ensaio filosófico (“...deixas azuis, falas com brilho de mata virgem, jardins de perguntas adocicadas e espelhos que refletem o contrário disso tudo”) para desistir do suicídio. Quadros minimalistas, recortes de momentos, pequenas larvas líricas que rastejam pelos nossos subterrâneos.
O leitor, acostumado com enredo, espaço e tempo estranhará as pequenas pinturas de Lindsey, pois elas são compostas de tonalidades de ausência – sintaticamente falando – por entre as quais, certamente, o leitor sentirá a falta de terreno onde pisar. Mesmo com esse hiato – de alguma coisa: razão(?) – os textos carregam outros corpos. Outras epidermes. A sensação de delírios causada pelas nervuras de Lindsey – esquizofrenia(?) – é o que eleva o simbolismo de seus suspiros poéticos, dos seus saberes os quais passeiam pelo paradoxo de nos dar e, ao mesmo tempo, solicitar os sentidos; também o erotismo em lençóis d’água no desejo das teclas do piano de Chopin quererem ser o corpo tocado por alguém: “o doce poder de dizer ser sua vítima”. É, portanto, na desautomatização da razão que encontramos a vida, e dela tiramos sonhos, palavras e compomos minuetos silenciosos. Não há terreno, sim nuvens por entre as quais passeiam vôos muitas vezes surreais. Coisas do espírito.
Ler nervuras do silêncio é nos ler através da pele. Dígitos de fantasia. É “aprender a pescar. Deixar de rabugice. Usar a isca da presença. Escutar um de repente um ‘sai dessa’ e sair”. Universo infinito feito de pequenas gotas silenciosas que resumem “toques, risos e saberes”.
Ao abrir o livro, cada fragmento nos faz tirar a roupa e saber que estamos sós, nus ao tempo presente cheio de vestígios rugosos no palco imagético da vida.
A título de conclusão, este conjunto de prosa-poética faz residir a solidão de Lindsey: ser vista como ela realmente quer.

"... Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo - e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser." (C. L.)