13.10.08

[Clipping]

[Naked man, back view, de Lucian Freud, 1992]


Ponto de fuga
Monstros de pureza

Jorge Coli
Colunista da Folha

Oswaldo Martins, especialista em literatura erótica, é também poeta. Um ou outro de seus poemas, em livros e no blog http://osmarti.blogspot.com/, contém palavras mais fortes. Alguns elaboram desejos físicos de maneira delicada e sem evidência imediata. O blog é inteligente [1], carregado de amor pela literatura; os poemas são bons.
Essas qualidades bastaram para que a Escola Parque [no Rio], em que Oswaldo Martins lecionava português, o demitisse, como contou, no domingo passado, o Mais!.
A miopia moralista da escola, dos pais, de "psicólogos e juristas" evocados no texto, miopia que desencadeou o caso, assusta pelo "obscurantismo e a certeza dos censores", na expressão do próprio professor despedido.
Censura e obscurantismo, no caso, não são singulares e episódicos. Eles se inserem na mentalidade de nossos tempos regressivos, marcados por puritanismos, por fundamentalismos religiosos, pelo maniqueísmo das convicções, pelo gosto doentio em patrulhar, controlar, vigiar e punir.
É bem difícil lutar contra tudo isso porque essas manifestações se fazem com parcimônia, gota a gota, disfarçadas, em nome de álibis austeros.
Aqui, trata-se de proteger as crianças, que como todos sabem, são anjinhos imateriais, feitos de etérea e cândida substância, não de carne e osso.
Mas quem os protegerá, e a nós todos, do mal que existe na cabeça desses educadores, desses pais, desses psicólogos e juristas, que nunca disseram um palavrão, que estão incólumes de pulsões pecaminosas, e que, senhores da moral, transformaram-se em juízes? Quem nos protegerá dos puros?

[CADERNO MAIS! nº 862. Folha de São Paulo, 12 de outubro, de 2008]

[1] Basta ler o sintético texto sobre os Continhos galantes, de Dalton Trevisan.