14.4.09

pandora ou a invenção da mulher

[hefaistos fabricando pandora]

[...]

A primeira mulher está ali, diante dos deuses e dos homens ainda reunidos. É um estátua fabricada, mas não à imagem de uma mulher, posto que ainda não existe nenhuma. É a primeira mulher, o arquétipo da mulher. O feminino já existia, porquanto havia as deusas. Essa criatura feminina é modelada como uma parthénos, à imagem das deusas imortais. Os deuses criam um ser perfeito de argila e água, ao qual imprimem a força de um homem, sthénos, e a voz de um ser humano, phoné. Mas Hermes também põe em sua boca palavras mentirosas, dota-a de um espírito de cadela e de um temperamento de ladra. Essa estátua, que é a primeira mulher, da qual saiu toda a "raça das mulheres", tem uma aparência externa enganadora, tal como certa partes do touro sacrificado ou como o funcho. É impossível contemplá-la sem sentir maravilhado. Ela possui a beleza das deusas imortais, sua aparência é divina. Hesíodo conta isso muito bem. Ficamos extasiados com sua beleza, realçada pelas jóias, o diadema, o vestido e o véu. Dela irradia-se a kháris, um charme infinito, um brilho que submerge e doma quem a vir. Sua kháris é infinita, múltipla, pollè kháris. Homens e deuses dobram-se a seu encanto. Mas por dentro esconde-se outra coisa. Sua voz vai lhe permitir conversar e tornar-se a companheira do homem, seu dublê humano. Mas a palavra é dada a essa mulher não para dizer a verdade e expressar seus sentimentos, e sim para contar mentiras e esconder suas emoções.

[VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 69-70]