Um país onde há séculos se deita a falação. Desde a carta de Pero Vaz de Caminha. A falação foi uma característica que os Esquemas souberam capitalizar, introduzindo na psicologia popular. Fizeram com que a falação se transformasse numa cortina de fumaça, encobrindo tudo que fosse possível.
Um processo de falação obedece a uma sequência invariável. Um primeiro momento, a chamada denúncia. Alguém levanta o problema. Em seguida, uma fase delicada. A das vozes indignadas, governamentais ou não, que se erguem exigindo providências. O terceiro requer habilidade.
É a fase das promessas. Garante-se a formação de comissões de inquérito, promovem-se passeatas controladas, editorias consentidos na imprensa, entrevistas categóricas. Este período é essencial, exige uma avalanche de falação contínua, exacerbada, exasperante. Falar até o total sufoco.
Não deixar ninguém raciocinar. Repisar indefinidamente o assunto, até o ponto de completa saturação. Falar, falar até o esgotamento. E então, de repente, ninguém mais pode ouvir sequer comentar as tais denúncias. Elas se esvaziam. Os que tentam são classificados como Intolerantemente Aborrecidos.
Os sistemas de governo sucederam, as noções políticas se modificaram, menos a falação. Esta prosseguiu como tara hereditária. Constantemente aperfeiçoada. Em tempos mais remotos, nos famosos Abertos Oitenta, houve certa preocupação, receios, na elite dominante. Ela ficou de sobreaviso.
Naquela época, o Povo e os Intelectuais, duas classes, distintas, separadas, se uniram à Classe Média Possuidora de Automóvel.
[BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum (memorial descritivo). 4 ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1982. p. 322]
