M. Brieva
No noticiário policial sensacionalista, o chamado mundo cão se transfigura em espetáculo; seus personagens reais, em heróis ou anti-heróis. O público, integrante da mesma sociedade (muitas vezes, da mesma comunidade) que produz o mundo cão concreto, consome-o como show e o renega como realidade. Tanto mais o consome quanto o mais o renega, o que talvez explique o êxito do sensacionalismo e das ficções policiais. Sentimentos intensos e ocultos como o medo, a agressividade, os preconceitos sociais, raciais e morais ganham vida própria no grande espetáculo. O naturalismo se torna escatológico e promove o enlouquecimento, a exacerbação da violência. Paradoxalmente, o discurso destila valores sentimentais, próprios dos dramalhões baratos, buscando ordenar na emoção dramatizada o caos real da criminalidade. A sociedade reflete a si mesma, sem dúvida, mas, paradoxalmente outra vez, reflete-se sem reflexão, sem informação objetiva, sem argumentação, ainda que apaixonada, mas apenas com a exploração dos impulsos primais modulados por preconceitos de toda a ordem.
No negócio do entretenimento, ao menos no Brasil, a espetacularização do mundo cão deixou de ser um item opcional para ser obrigatório.
O verbo fabricar não é exato - a televisão confecciona, molda a cena de que precisa.
A televisão tem o dom de forjar a realidade que quer "fotografar"
A comunicação de massa ... cria um espaço social sui generis porque substitui o espaço social concreto, feito de divisões, diferenças, interditos e limitações, por um espaço homogêneo e transparente, aberto a todos e no qual os indivíduos privatizados e isolados ganham a ilusão de pertencer a uma comunidade. Se a sociedade de classes diferencia os homens naquilo que eles deveriam ter de igual por direito, a sociedade de massa os iguala por sobre as diferenças que deveriam marcar as individualidades, iguala-os no que teriam direito dê-se diferenciar. Onde a sociedade de classes desiguala, no plano concreto, a Comunicação de Massa indiferencia, no plano da ilusão ou, mais propriamente, da ideologia.
O peso da violência explícita regula-se, dentro da televisão, pela função ideológica da Comunicação de Massa, luz sagrada, função que faz pulsar a miragem de permanência adorem.
Não são acidentais os processos de humilhação pública daqueles que já são humildes dentro da televisão brasileira. Esta, se nascida de uma ordem violenta, com a função ideológica de neutralizar as contradições materiais em comunhões ideológicas, colaborou para que a ordem violenta se transformasse em sinônimo de paz social. Por isso, o escárnio com que se tratam os humildes não parece violento, à primeira vista, no vídeo: porque o modelo de televisão é produto de uma ordem que também dedicou escárnio, sistematicamente, aos humildes. Para este modelo, portanto, isso é, exatamente, normal - no sentido pleno da palavra: normal porque da norma, da normalidade. Feito com um pouco de bossa, então, mais do que normal, é engraçado, precisamente como teria sido engraçado, um dia, para os senhores, fazer um escravo dançar descalço sobre as brasas. Temos uma televisão na qual muitos valores estão de pernas para o ar. Feita à imagem e semelhança da ditadura, num processo histórico em que o avanço tecnológico se punha a serviço do atraso político, do obscurantismo e da cassação dos direitos, ela reproduz relações de poder que já não encontram consonância com a democracia moderna que ao conjunto da sociedade brasileira dá sinais de querer para si. Essa televisão é a permanência no tempo de um projeto violento de integração nacional, é o produto é a permanência, ainda que órfã, de um poder violento.
Daí a sensação de que temos uma televisão cujos valores parecem estar de pernas para o ar, o que podemos verificar em cada detalhe de sua programação, em especial nas questões que dizem respeito à violência. O que em seu código interno, na sua semântica própria, é definido como violência, muitas vezes o é segundo o dicionário antidemocrático, aquele dos militares dos anos 60, que pretenderam fazer do regime de exceção uma normalidade. Quer dizer: frequentemente, a televisão ainda vê como um gesto violento (e o retrata como tal) aquilo que é mera reação legítima contra uma ordem, está sim, violenta. Isso não se confirmou apenas na resistência à ditadura, mas também por ocasião das greves históricas do final da década de 70, início da década de 80, definidas como "criminosas" e "ilegais" pelo poder - e de "violentas" pela televisão. As imagens de um piquete em que grevistas enfrentassem a tropa de choque, no horário nobre, talvez fossem catalogadas como cena violenta pelas duas pesquisas citadas... mas o fato de uma grande emissora disparar editorias contra a tentativa de se retomar um direito cassado, o direito de greve, este não se vê como violento.
Eugênio Bucci
