Uma nação que tolera as favelas, os esgotos a céu aberto, as salas de aula superlotadas e que ousa castigar os jovens delinquentes me faz pensar naquela velha bêbada que vomitava sobre seus filhos durante toda a semana e que esbofeteou o menorzinho, sem querer, num domingo, porque ele tinha babado em seu avental.
E, por favor não conte com o poder das palavras. Você já ouviu alguma vez um camponês conversar com suas beterrabas, um verdureiro com suas folhas, um viticultor com suas uvas? Eles fazem o que é preciso para que as plantas cresçam, e são muito respeitosos com o tempo. Não estou falando para você da chuva e do vento, mas da duração necessária para que as coisas se realizem. Quando resmungam “isso não vai dar certo” é porque não há nada mais a ser feito. E se você me disser: “É, mas os filhotes de homem têm orelhas”, eu responderei: Infelizmente… se esse buraco não existisse, os adultos não poderiam despejar nele suas idiotices”.
Fernand Deligny | 1943
Trad.: Juliana J. e Luiz P.
