24.2.23

Scorched earth


A narrativa de agora - aquela de uma tecnologia igualitária colocada em risco por monopólios corporativos, pela supressão da neutralidade da rede e pela invasão da privacidade - é claramente falsa. Nunca houve nem haverá "bens comuns digitais".

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Abordagens da internet como um campo igualitário e horizontal de "esferas públicas" apagaram toda e qualquer linguagem baseada em classes ou na defesa da luta de classes, em um momento histórico em que antagonismos de classe estão mais pronunciados do que nunca. De fato, o complexo internético nunca foi empregado, com o menor sucesso que fosse, na promoção de agendas anticapitalistas ou antiguerra. Seu funcionamento dispersa os desempoderados em agrupamentos de identidades, facções e interesses separados - e é eficiente sobretudo na solidificação de grupos reacionários. A insularidade aí produzida age como incubadora de particularismos, racismos e neofascismos. A política identitária tem sido fundamental para as estratégias das elites neoliberais - para garantir que uma maioria potencialmente poderosa não seja capaz de se reconhecer, de modo que se divida em facções separadas e rivais a partir das quais um punhado de representantes sejam autorizados a adentrar a meritocracia. Teóricos da comunicação identificaram as formas pelas quais as mídias se transformam em "mecanismos de condução" que servem para limitar, moldar e redirecionar o debate público. A internet se tornou o mais infinitamente nuançado e poderoso desses mecanismos de condução na história das mídias de massa. Seria difícil encontrar uma "conversa" em curso que não tenha sido moldada por mecanismos cada vez mais eficientes de orientação de troca on-line e de intervenção no conteúdo das mensagens.

A "política" se torna uma extensão dos mesmos gestos e cliques, do mesmo uso de sondagens e de pesquisa de opinião que fortalecem a integração das pessoas às rotinas do consumismo e do autogerenciamento.

A "alfabetização digital" é um eufemismo para comprar, jogar on-line, maratonar séries e se engajar em outros comportamentos monetizados e viciantes.