Se é possível pensar que ela desemboca hoje em uma massificação mal pensada, mal preparada, muito pouco financiada, não é efeito de uma doutrina toda voltada para resultados programados. A falta de meios, a penúria dos professores, a sobrecarga das classes, se testemunham sem dúvida uma lógica de empobrecimento dos serviços públicos, relacionam-se igualmente a uma antiga tradição das elites econômicas e políticas que, se pagando palavras generosas, concedem mesquinhamente os meios financeiros quando se trata da instituição de crianças das classes populares
Marc Bloch, tirando lições das derrotas de 1940, o ressaltava antigamente. Quanto à centralização burocrática que caracteriza a administração do estado, ela engendra há muito tempo um espírito de casta, mantém o desprezo das esferas superiores com relação a uma base julgada incapaz ou imóvel, um autoritarismo de chefe e um fetichismo do regulamento e, no todo, uma iniciação geral dos administrados e dos funcionários que pode tornar por vezes sedutoras certas soluções liberais extremas. Enfim, e talvez sobretudo, a escola é atravessada por uma contradição maior, longamente exposta por numerosos autores, entre as aspirações igualitárias de acordo com o imaginário de nossas sociedades e a divisão social em classes, contradição que não se dá sem acelerar a imposição da concepção liberal da escola que pretende sobrepuja-la e que na realidade a agrava. A força do novo modelo e a razão pela qual ele pouco a pouco se impõe, referem-se precisamente à forma como o neoliberalismo se apresenta à escola e ao resto da sociedade, como a solução ideal e universal a todas as contradições e disfunções, enquanto na verdade esse remédio alimenta o mal que ele supostamente cura. Com a imposição desse modelo liberal, a questão escolar não é mais somente o que se denomina "problema social", ela tende a se tomar uma questão de civilização. Em uma sociedade com poderes de produção notáveis, o acesso universal à cultura escrita, letrada, científica e técnica pela educação pública e instituições culturais, se torna uma utopia irrealizável. No entanto, o que é possível não pode ser realizado por pelo menos duas razões associadas. A primeira refere-se à preeminência da acumulação de capital sobre qualquer outro fim consciente da sociedade. Realizar esse direito universal à cultura suporia, com efeito, um financiamento público ampliado sob a forma de imposto ou de cotizações sociais que contradiria as políticas liberais de baixa das contribuições obrigatória, baixa que visa a aumentar a despesa privada e a estender a esfera mercantil em detrimento da esfera pública. Nesse contexto, o direito à educação não pode se degradar em uma demanda social solvível que se destinará sempre mais, e de modo muito desigual, a uma educação privada. O outro limite relaciona-se à pressão das solicitações mercantis e de divertimentos audiovisuais que aprisionam o desejo subjetivo na gaiola estreita do interesse privado e do consumo. O livre uso da mercadoria se toma a forma social dominante do prazer dos sentidos e do espírito. Salvo quando se dispõe de uma célula familiar muito protetora, os jovens são facilmente desencaminhados pela "socialização-atomização" mercantil das alegrias intelectuais e, em decorrência, entram com mais dificuldade na cultura transmitida pela escola. Na sociedade de mercado, o consumo ultrapassa a transmissão.
Christian Laval
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