O processo da reificação do indivíduo, relegado à posição de objeto entre objetos, tornou-se um tema preponderante na ficção de nossos dias porque, em última análise, expressa "o drama da adaptação" em que está cifrada a vida na sociedade de consumo.
A fotografia impiedosa da vida mecanizada e banalizada sob a trepidação aparente da cidade onde se desenrolam os desajustes e as injustiças sociais, condicionando os indivíduos e privando-os do exercício da liberdade. O escritor assume a função de tornar o romance um instrumento de observação e crítica da realidade, julgando-a sob múltiplos aspectos. Por isso mesmo, as suas personagens não podem ser compreendidas senão quando relacionadas com o contexto social em que se movimentam e este, por sua vez, é arguido através das histórias individuais que o revelam.
A técnica da narrativa realista permitiu, assim, a Érico Veríssimo chegar a um tipo de romance no qual o juízo ético, isto é, a posição assumida pelo autor diante da estrutura social implicada, deixa de ser um elemento externo à ficção para tornar-se interno, fundamento da própria vida de suas personagens. A luta de Clarissa e Vasco, Fernanda e Noel, Álvaro Bruno e Seixas, Olívia e Eugênio se traduz no combate obscuro, diário, inglório para assegurar um lugar ao sol numa sociedade dividida por preconceitos morais, discriminações económicas, abismos classiais. O drama que os envolve a todos é o drama da adaptação; ou melhor, o drama da insanável "desadaptação" na ordenação de uma sociedade reificada. Creio que durante dez anos Érico Veríssimo revolveu esse tema, amadurecendo-o na observação rigorosa do mundo burguês e na formação de uma ideologia liberal, para então chegar a projetá-lo de forma definitiva numa severa visão crítica da sociedade brasileira: o painel histórico em que se desdobra O tempo e o vento, cujo primeiro volume viria à luz em 1949.
Noite vincula-se, assim, à minuciosa investigação da vida urbana e da mentalidade burguesa processada por Érico Veríssimo na fotografia coletiva de Caminhos cruzados e Um lugar ao sol, na crítica social que se torna explícita no destino traçado para as personagens de Olhai os lírios do campo e Saga, na opção por uma ideologia liberal e humanista que se estabelece em O resto é silêncio através das palavras de Tônio Santiago. Qualquer uma dessas narrativas termina incidindo no conflito sempre presente entre as aspirações de liberdade individual e a tirania exercida por uma estrutura social que as inibe ou condiciona. Noite vem a ser o último termo da investigação, o livro que ainda faltava para completar o chamado "ciclo de Porto Alegre", quando uma longa experiência termina por revolver os meandros da realidade aparente.
A epopéia do Desconhecido está cifrada nessa indagação inicial que a tudo coloca sob risco de morte, empreendendo, então, a luta por adquirir a própria identidade sem a qual não poderá jamais assumir a consciência do mundo que o rodeia. Esse é o núcleo da narrativa e nele revela-se o verdadeiro tema de Noite: a luta do homem para ultrapassar o anonimato num mundo anónimo à procura da identidade. Tema crucial do romance moderno que parece fazer-se presente de forma intensa a partir dos escritos de Kafka, refletindo sobre todo o romance realista da literatura burguesa — em Thomas Mann e Robert Musil, em Carlos Fuentes e Júlio Cortázar.
Érico Veríssimo atingiu-o mediante a implacável observação da sua sociedade e a organização de um estilo realista que evolui desde os primeiros romances para desaguar na síntese perfeita de Noite.
Em Noite, a perspectiva do narrador é outra. O indivíduo foi isolado na sua situação de grande solitário em meio à multidão e o tema da busca de identidade leva a considerar as relações entre o "eu" e a sociedade reificada num ângulo diferente — o "estranhamento", a perda do domínio sobre o espaço habitado e, portanto, a trágica sensação de haver sido desligado o último canal de comunicação.
Simboliza, sobretudo, o homem contemporâneo diante do seu mundo incompreensível, fazendo-nos personagens do drama em que nos tornamos estrangeiros na terra onde nascemos.
Inicia aqui a longa jornada noite a dentro, rumo ao coração da cidade, em busca de algo que talvez já tenhamos perdido para sempre.
Flávio Loureiro Chaves
