8.2.26

A figura do gato como capa para considerações mais profundas


É sabido que, de todos os tempos, muitos artistas e escritores têm tido gatos por companhia ou modelo. Uma cumplicidade misteriosa parece estabelecer-se entre as duas mentes que se afirmam igualmente pela independência e pelo individualismo. Para o solitário escritor, homiziado da sociedade dos que só vêem para fora, a silenciosa testemunha, não interferente mas tacitamente aprovadora, é o apoio psicológico que garante a própria existência do real.

Um gato é aquele ser impassível que, sem cerimónias, pode instalar-se – a afirmar direitos e intimidades – exactamente sobre o caderno onde o dono está a escrever; mas é também aquele que é capaz de, distraidamente, se passear por cima de montes de papéis espalhados sobre uma secretária sem que o mais pequeno desvio se note depois da sua passagem. Assim era o gato Murr com os livros e papéis do seu mestre e amigo Abraham; assim era o “practical cat” Rum Tum Tugger, pois “he’ll leap on your lap in the middle of your sewing”. O gato é também aquele ser que nos olha com intensidade mas sem expressão, de forma que nas suas pupilas, mais ou menos dilatadas, apenas podemos descobrir um inteligente espelho de nós próprios e do mundo por trás de nós, ao mesmo tempo que no seu brilho encontramos a lampadazinha de que fala Adams, que devassa os caminhos para os tesouros insuspeitados existentes no nosso íntimo.

Maria Cândida Zamith Silva
Universidade do Porto