9.3.26

O super-homem vai ao supermercado


Um velho truque de polemista. Se não existem fatos convenientes, invente-os. Seja rápido em escrever suas próprias estatísticas. Havia algum cordão umbilical entre a direita e o mentiroso psicopata.

Havia assassinos no plenário. Havia mesmo. Era uma convenção com uma atmosfera assassina. A atmosfera dessa convenção falava de um novo tipo de sociedade. Quimeras do fascismo pairavam como um espesso nevoeiro. E um vivo entusiasmo. Alguns dos delegados estavam muito animados. “Viva”, bradava uma parte da galeria. “Olé”, vinha a resposta. Havia um clamor, um bramido de touro, uma comunhão mística naquele som, mais ou menos como Sieg Heil costuma proporcionar sua comunhão mística. Viva-Olé. Hip-hurra! Hip-hurra! Era a nova moda dos estúpidos. A mente americana tinha decaído de Hawthorne e Emerson para a Dança, o Jogo e o Passeio com o Cachorro, de O florescimento da Nova Inglaterra ao cerebralismo do futebol americano profissional, que exige de um zagueiro que não apenas tenha garra, coragem, força e elegância, mas também uma mente semelhante a um computador IBM. Isso mostra o quanto nos desviamos do caminho da Renascença. Havia ali também o ideal de um herói com garra, coragem, força e elegância, mas esperava-se que ele tivesse também a mente de um artista apaixonado. Agora os melhores heróis eram - no sentido da Renascenca - descerebrados: Y.A. Tittle, John Glenn, Tracy, Smiling Jack; os artistas impetuosos estavam correndo em carros envenenados, a banda de twist açoitava os namorados, o patriotismo era um jogo de futebol americano, o fascismo emergiria (se viesse a emergir) de Hip-hurras! Hip-hurras! A ilusão gerara 50 milhões de mentes de comédia musical; agora a ilusão podia fazer qualquer coisa; podia botar estudantes de colégio para urrar Viva-Olé, e eles urrariam enquanto vítimas de um novo totalitarismo seriam despachadas para um novo tipo de campo - ei, doçura, você dança o twist?, gritariam para dentro do ônibus.

Norman Mailer
1923 - 2007