9.3.26

O super-homem vai ao supermercado


Não dava para votar num homem que construiu uma carreira alardeando o perigo comunista - era fácil demais: metade dos porcos, dos valentões e dos covardes do século XX tinha feito sua fortuna à custa desse medo. Tive um momento de fúria contra o embuste. Estava cansado de ouvir a respeito da elevada e admirável coragem de Barry Goldwater. 

No dia anterior, no plenário, conversando com um jovem delegado de Indiana, eu tinha dito: “Já lhe ocorreu alguma vez que Fidel Castro talvez tenha mais coragem que Barry Goldwater?”.

“Sim, mas Castro é uma mente criminosa”, disse o rapaz.

Encerrei a dicussão. Estava perto demais de perder a paciência. Será que os melhores jovens de cada cidadezinha caipira, com a cabeça feita pelo colégio e pela Legião Americana, entraram nessa cruzada consevadora porque Goldwater despertava um apelo em favor da liberdade, da coragem, da mudança? Que engodo estava sendo feito, que aniquilação do que havia de melhor no pensamento conservador! Eram tão virtuosos aqueles republicanos.

Norman Mailer
1923 - 2007