Veio-me à cabeça uma lembrança dos velhos (ou novos?) tempos de piá.Pulava o portão da igreja para jogar bola. O campinho de terra batida era como um campo de batalha, contudo sem mortes, o mais provável era uma derrota muitas vezes amarga, como viria a sentir depois, ao longo da vida. Um campinho de molecada. A trave de madeira, o banquinho da torcida, os buracos por todo o campinho, que volta e meia faziam um lance de efeito, uma jogada sem querer, um drible de craque.
A piazada, para assistir ao jogo, subia em árvore, escalava alambrado, sentava no muro. Tudo quanto ilustre jeito para assistir eufórica a cada lance do espetáculo.
O nosso time era imbatível. Não que eu queira puxar a bola para o meu lado. Era o “mais bom”, dizia um garotinho. Contava comigo no ataque, com o gordo dominando o meio de campo, com o pezão, zagueirão de fazenda – todos gritavam: ÊEE fazendeiro –, com o sapo na lateral direita, com o macaco, na esquerda e com goleiro esquifo. Nomes de craques. Estrelas que brilharam outros tempos. Não me perguntem o por que do apelido esquifo. E eu sei? As crianças têm manias das mais variadas espécies e gostos.
Jogo atrás de jogo, ganhávamos. Às vezes uma briguinha acontecia, um empurra-empurra sai pra lá deixa disso... a garotada ia ao delírio.
Nesse remoto tempo é que me lembro de dois irmão, nunca no mesmo time. Um era o gordo, meio campo. Brigavam que só vendo. Lembro-me como se fosse ontem: o gordo correndo atrás do irmão mais velho com um tijolo em mira. Rárárá.
Quanta inocência na garotada.
Depois do sofrido jogo, as roupas sujas da terra, um machucado aqui ou ali, um galo na cabeça, um dedo inchado. O time ganhador era recompensado. Com refrigerante e salgadinho Tip Top. Mas era com o néctar precioso que quase nos matávamos. Nessa hora era que nos gabávamos: - Ao líquido, ao líquido, gritávamos eufóricos. Os copos de plástico batiam.
Como era gostoso...
Seria impossível, descrever tamanha alegria, um domingo desses. Era tanta coisa junta. Depois do jogo, era um soltar pipa, um jogar bolinha de gude, um esconde-esconde. À tardizinha, com as meninas, era casamento atrás da porta.
Bem no finalzinho da tarde, apareciam as mães de aventais, enxugando as mãos:
- Seu moleque sujo. Já fez a lição de casa? Vai tomar banho e cama, ouviu?
Quem poderia pensar em lição de casa num domingo desses.
Vagas vozes, que agora velho, recordo neste álbum de fotos, que folheio como se virasse cada dia meu. Seria uma lembrança verdadeira? Como voltar naquela tarde ensolarada de domingo?