A raiz de uma planta existe, mesmo se eu não puder explicá-la. Está aqui na minha frente, nodosa, calosa, trançada e inerte. Sem identidade, cascuda, a desenvolver-se no subterrâneo, feito toupeira, quiça: verme.
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30.6.23
14.2.23
Farewell
O pequeno vinhedo ficou abandonado, o mato invadiu a terra, casas estão sem tetos, jovens imigrando para alguma superfavela na periferia do capitalismo em busca do comum "oportunidades melhores".
22.1.20
Cachorros e gatos
Poderíamos pressupor que existem dois tipos de pessoas. Os que tem cães em casa e os que vivem com gatos. Aqueles são impacientes, vivem a bater portas e, normalmente, não sabem conversar e menos ainda dividir parede. Muitos são alcoólatras, pautados pela televisão e dissimulados.
E há aqueles que convivem com gatos. Estes são calmos, não carregam o costume de bater portas ou agir como agentes provocadores e apreciam, sobretudo, uma boa palestra. Normalmente são leitores profissionais e, ao invés da televisão na sala ou no quarto, preferem decorar seu ambiente com livros. Seu espaço mais frequentado é a biblioteca.
E há aqueles que convivem com gatos. Estes são calmos, não carregam o costume de bater portas ou agir como agentes provocadores e apreciam, sobretudo, uma boa palestra. Normalmente são leitores profissionais e, ao invés da televisão na sala ou no quarto, preferem decorar seu ambiente com livros. Seu espaço mais frequentado é a biblioteca.
O mundo, às vezes, me parece ser tão simples como esta dicotomia.
1.11.19
O pão nosso de cada dia
"Fé no pai" é o que está escrito em vermelho num canto todo cagado no centro da cidade linda e amorosa. Estacionado no meio-fio do canto todo cagado um carro popular com adesivo de que Jesus cura.
10.10.19
O som ao redor
Eu estava lendo mais um capítulo do excelente livro de Jason Stanley quando de repente não mais do que de repente um barulho me distrai. Paro a leitura marcando a página na qual estava estudando para ver o que pegava na rua. A princípio pareciam cachorros latindo. Eu usava fone de ouvido. Onde moro só é possível praticar a leitura com fone de ouvido. Mas como o álbum que eu desfrutava estava numa altura bem baixa, o ruído interrompeu a minha concentração. Pus a escutar para saber onde estavam esses malditos cachorros. Não eram cachorros, por incrível que pareça, mas duas pessoas gargalhando em algum ponto da rua que não pude saber com muita certeza.
Mas eu juro, pareciam cachorros correndo e latindo atrás da roda de algum carro.
7.9.19
Autorretrato
Almoço. Vou pagar a conta. Dezoito reais. Comer nos dias de hoje está custando os olhos da cara. Enquanto espero a máquina aceitar a transação, a balconista me pergunta pelo pin que tenho espetado na jaqueta ao lado esquerdo.
- É o Johnny Deep?
- Não, não, é um fragmento de um quadro...
- Mas parece o Johnny Deep, é igualzinho.
- Lembra um pouco, mas é de um artista realista...
- Mas olha se não é a cara do Johnny Deep?
- É de um pintor francês realista.
- O cavanhaque, tudo igualzinho ao Johnny Deep. Como é mesmo o nome do pintor?
- É Courbet.
- Nossa, para mim eu jurava que era o Johnny Deep. Jurava.
A balconista não me deixava explicar a origem da imagem. Ela atropelava as minhas palavras com seus dedos gordurosos quase a tocar em meu bottom. Peguei meu ticket e dei o fora.
10.6.19
deus na caixinha de plástico
Annuska vem almoçar em casa. É um momento em que para o trabalho imaterial. Lavo a batatinha salsa, ralo o queijo, ponho a cenoura e a batata doce no vapor. Tempero as asinhas de frango com sal, pimenta, alho e carinho. Annuska dá aquela atrasadinha de sempre. Deixo tudo dentro do forno, no modo quentinho.
Almoçamos falando dos projetos futuros como um chalé no mato. O que será nosso refúgio espiritual, digamos assim.
Ela ainda me chama para ajudá-la a levar umas roupas velhas para tingimento. Mochila nas costas, caminhamos até a lavanderia próximo à praça Rui Barbosa. Entre trânsito caótico, gente dormindo na rua, vamos combinando de nos ver mais tarde, mas ela me lembra que tem aula de dança à noite.
A lavanderia está vazia, pressuponho que o atendimento será rápido. Fico do lado de fora colado à bicicleta. Não havia trazido o cadeado para prendê-la, longe dos furtos recorrentes na cidade linda e amorosa. Ligo o celular para ouvir black metal.
Fico observando a paisagem da cidade poluída por banners horripilantes. Nem prédio de habitação escapa da poluição visual. As ruas entupidas de automóveis apenas causam ruídos, poluição e stress. Nessa minha observação do padrão das cidades, um motoqueiro para a uns dez metros de distancia de mim. Na moto há uns adesivos que me fizeram lembrar caderno de criança. Faltou o smilinguido ali. O motoqueiro me fita, olha para o celular e me fita novamente. Creio que esteja me filmando. Volto a notar os adesivos na caixinha de plástico da moto. Havia alguma coisa como "nas mãos de deus", frase dessas de crente meio sem noção (desculpe a redundância) e um mickey mouse.
Mando uma mensagem pra Annuska lhe dizendo que há um cara estranho, um tipo fanático com deus na caixinha de plástico. Annuska me envia uma carinha rindo. Volto a fitar o sujeito que deve ter fugido da escola, o que também não muda em nada, visto que as escolas são umas drogas. Mas imagino o que se passa na cabeça do moleque com sua frase religiosa de deus e mickey mouse na moto. Que mistura! Peraí, que lambança fizeram na cabecinha do menino.
13.4.18
papeletras
Ontem, ao fazer o circuito do Feirão de Livros da UFPR, fui perguntando se havia livros de tendência libertária. Em nenhuma das mesas encontrei autores anarquistas.
A BOITEMPO continua com os preços muito salgados para nós, habitantes do terceiro mundo.
Eu estranhei duas mesas, a da EDUSP que trouxe o mais dos mesmos e a da UNESP, que excluiu os livros de Mauricio Tragtenberg.
A mesa da UFMG estava com um cardápio apetitoso. A introdução d'A luta desarmada dos subalternos é de lamber os beiços.
Faltaram outras editoras que considero fundamentais, como a VENETA e a AUTONOMIA LITERÁRIA. E ainda me perguntava: por onde andam os livros da editora DERIVA?
27.12.16
na sala de aula
A turma cheia, trina alunos. Segundo dia de aula. Nem bem começo a leitura de um texto sobre a sociolinguística, bem didático, Lucas interrompe, educadamente a aula, ao levantar a mão. Paro a leitura, sem terminar o primeiro parágrafo, e pergunto:
- Dúvidas?
Lucas mexe no boné e olha para um colega ao lado. Ri com certo ar de capetinha e volta-se para mim:
- Fêssor, cê é ateu.
Minha intenção era falar só sobre sociolinguística e literatura. Não entendi a questão fora de contexto. Mas para sair logo dessa, respondi:
- Sou 80% ateu, 10% cético e 10% agnóstico.
A turma em uníssono solta um imenso tooooooooooooma!
Nessa, já era a aula.
30.8.12
dias & dias
Être un homme utile m'a paru toujours
quelque chose de bien hideux.
[C. B.]
fatia de pão
O
que me encanta nalgumas cidades, fora o verde que não virou bosque ou
parque, são as esquinas de fim de tarde. As esquinas
escurecem ajudadas pelas árvores, nas mais variadas espécies e porque
também (da licença, meu) é a vez da lua, ora bolas. Sai o Sol, vem a Lua
vestida de estrelas.
Lá
por sete horas, eu paro as minhas atividades e saio prum rolê. Escolho
uma esquina, acendo um cigarrinho e puxo lero cum tempo. Volta e
meia, neste raro prazer dos dias, pinta um passarinho querendo uma
ideia. Passarinho xô! que não sou de voar. Passarinho vai.
Longe,
invejo o seu voo. Inveja boa, porque eu queria viver simplesmente como
um passarinho. Comer sementes: ser leve, i.e. dormi com a noite, acordar
com o dia. Sem programações para tardar. Caio em contradição, bem sei.
Passarinho canta na minha janela, antes das seis da manhã. Passarinho madrugador. Passarinho camarada.
Na hora do café, antes do rolê, pousa
no pé de lichia um casal ressabiado de sabiá. Árvore copada esconde os passarinhos. Mas vejo por um buraco, entre um
galho e outro, o casalzinho mínimo se brimbicando.
A
lichia é uma árvore alta: em torno dos seus três a quatro metros de
altura. Se um palmo tem vinte e cinco centímetros, vai lá. Não é a toa que
as folhas dessa árvore chamam prum mergulho de utopia.
15.12.11
o pinguim as vísceras e os urubus
O fato poderia dar um conto, como queria my adorable girlfriend. No entanto, eu não vou transformar o ocorrido numa narrativa ficcional.
Não.
Relato: andávamos léguas quando desde logo ali uma coisa. Não nítida. Distante. Havia urubus em torno da carniça, que era um pingüim perfurado por essas aves que se alimentam da carne podre de animais mortos; falo dos urubus. Quando nos acercamos em torno do mamífero, arremessei um pedaço de tronco úmido. O gesto expulsou os bichos, que bateram asas. Do bando colorido pelo breu da plumagem, contamos cinco. No céu, eles formaram uma nuvem agourenta. E o peixe (sic!) continuou imóvel, com perfurações sob as nadadeiras, no rosto: sem os dois olhos, evidentemente. Aquelas criaturas estavam realmente famintas. Apanhei o tronco que eu havia arremessado contra os monstros de cabeça nua e virei o pinguim. Do orifício, ou como conhecemos mais popularmente pelo vocábulo cu, escorria os restos mortais do seu pequeno intestino misturado com sangue, víceras: miúdos. E o cérebro tinha sido comido através dos ouvidos.
Não.
Relato: andávamos léguas quando desde logo ali uma coisa. Não nítida. Distante. Havia urubus em torno da carniça, que era um pingüim perfurado por essas aves que se alimentam da carne podre de animais mortos; falo dos urubus. Quando nos acercamos em torno do mamífero, arremessei um pedaço de tronco úmido. O gesto expulsou os bichos, que bateram asas. Do bando colorido pelo breu da plumagem, contamos cinco. No céu, eles formaram uma nuvem agourenta. E o peixe (sic!) continuou imóvel, com perfurações sob as nadadeiras, no rosto: sem os dois olhos, evidentemente. Aquelas criaturas estavam realmente famintas. Apanhei o tronco que eu havia arremessado contra os monstros de cabeça nua e virei o pinguim. Do orifício, ou como conhecemos mais popularmente pelo vocábulo cu, escorria os restos mortais do seu pequeno intestino misturado com sangue, víceras: miúdos. E o cérebro tinha sido comido através dos ouvidos.
29.8.11
numa fila imensa
o terminal com seu piso de borracha estava lotado. por isso esperei três ônibus. um logo atrás do outro. ao chegar o terceiro comboio vazio que voltou cheio, um homem deixava cair uma corrente. fiquei sabendo do ocorrido pelo barulho, mas não tinha sido isso o chamativo da minha curiosidade e sim uma mulher dizendo:
“olha, aquele homem deixou cair uma pulseira.”
me virei. o objeto reluzia há uma distância de dois passos. neste meio tempo em que eu pensei no comprimento que me separava do objeto, notei um moleque indo ao seu alcance. ele percebeu o meu movimento quando tomei a dianteira nos exatos dois passos e zup!... como um pirulito, eu possui o adorno para o corpo humano. não pensei no dono da pulseira, embora tenha lembrado que a coisa pertencia a alguém. até aquele momento. observei o acabamento dela: dois dragões chineses de metal chumbado. bem feito o acabamento. pesei utilizando dois dedos para saber por quanto eu podia vendê-la.
“cincoentão?"
vale. olhei para o céu, mas o teto de metal circunlovado retesou minha visão. rodopiei a pulseira como uma putinha e voltei à fila, para embarcar no bus.
“olha, aquele homem deixou cair uma pulseira.”
me virei. o objeto reluzia há uma distância de dois passos. neste meio tempo em que eu pensei no comprimento que me separava do objeto, notei um moleque indo ao seu alcance. ele percebeu o meu movimento quando tomei a dianteira nos exatos dois passos e zup!... como um pirulito, eu possui o adorno para o corpo humano. não pensei no dono da pulseira, embora tenha lembrado que a coisa pertencia a alguém. até aquele momento. observei o acabamento dela: dois dragões chineses de metal chumbado. bem feito o acabamento. pesei utilizando dois dedos para saber por quanto eu podia vendê-la.
“cincoentão?"
vale. olhei para o céu, mas o teto de metal circunlovado retesou minha visão. rodopiei a pulseira como uma putinha e voltei à fila, para embarcar no bus.
6.7.11
ceebja
Os alunos foram chegando, ocupando seus respectivos lugares. Mas notei que eles estavam com as caras abatidas. Uma criança havia sido morta por policiais, me disse uma aluna. Era uma criança que toda a comunidade conhecia.
No rosto de cada um notava-se o desconsolo. A dor. O cansaço. Até parecia que eles perguntavam a Deus: por que a criança e não a mim.
17.5.11
ana no amor líquido sem anarquismo
A perna da mocinha balançava. Sem parar. Notei com isso que ela estava nervosa, ou esperava na certa um passo meu. E eu estava bem afim de chegar.
Fui, para evitar maiores desencontros, pois a vida está cheia deles, com cautela. E no que deu? Não deu.
Ana me lembrou uma cantora de cabelo bem curto, o que dá um toque: um certo charme bossanovístico. nela seu perfil destaca-se o nariz e um pelinho loiro que me chamou a atenção (seria o meu punctum?); o pescocinho que só uma mordidinha, moça, deixa, vai, estava todo. O sorriso tímido surgiu do seu rosto que mais parecia um espelho onde eu mirava fundo em seus olhos.
Ana num dia de sol e bife a cavalo estava de corpo e alma dentro do vestidinho; ela sorria. Rugas apareceram quando ela sorriu.
“Que chinelinho mais lindo nos pés pra beijar.”
Ao céu de café com baunilha, ela como um corpo caminhava no chão da garoa nublada. Virou minha obsessão, outro dia. Pro eterno agora.
Ai, Ana, o que fez de mim? Cadela do meu coração: que devora, que devora: devorando.
Ana me lembrou uma cantora de cabelo bem curto, o que dá um toque: um certo charme bossanovístico. nela seu perfil destaca-se o nariz e um pelinho loiro que me chamou a atenção (seria o meu punctum?); o pescocinho que só uma mordidinha, moça, deixa, vai, estava todo. O sorriso tímido surgiu do seu rosto que mais parecia um espelho onde eu mirava fundo em seus olhos.
Ana num dia de sol e bife a cavalo estava de corpo e alma dentro do vestidinho; ela sorria. Rugas apareceram quando ela sorriu.
“Que chinelinho mais lindo nos pés pra beijar.”
Ao céu de café com baunilha, ela como um corpo caminhava no chão da garoa nublada. Virou minha obsessão, outro dia. Pro eterno agora.
Ai, Ana, o que fez de mim? Cadela do meu coração: que devora, que devora: devorando.
24.2.11
a noite: que sono
À noite o percalço vem atrás. Um copo de plástico como um caracol rola na calçada. Sequer tenho uma sombra que me acompanha.
Na volta, conto os semáforos. São mais de cinco até chegar ao buraco convencional, pois o caminho é curto e menos rápido. Por causa do respeito mútuo entre eu e o semáforo; seus signos: um homenzinho vermelho estagnado.
O livro aberto está a espera. Condenado entre o mito e a filosofia do amor. O kama sutra particular.
Ultraparticularíssimo.
Na volta, conto os semáforos. São mais de cinco até chegar ao buraco convencional, pois o caminho é curto e menos rápido. Por causa do respeito mútuo entre eu e o semáforo; seus signos: um homenzinho vermelho estagnado.
O livro aberto está a espera. Condenado entre o mito e a filosofia do amor. O kama sutra particular.
Ultraparticularíssimo.
5.1.11
The in sound from way out!
Vícios são vícios, diria um amigo. E é o que faz sustentar a economia, eu complemento. E foi através desse amigo que pude entrar em contato com o álbum dos moleques do Beastie Boys. Que se tornou um vício, eventualmente. Levanto: boto na vitrola; vou deitar, deixo repetir por toda a noite. São treze faixas de hip hop. Muito não sou entendido da coisa, isto é, do estilo musical, mas gosto pra cacete do ritmo, da sonoridade, da levada. E o mais interessante: todas as músicas são instrumentais, o que facilita a leitura de um livro.
II
Tenho uma queda por cinema, e se eu fosse diretor, acho que com certeza utilizaria uma música desse disco.
III
Minha faixa favorita, além de todas, se chama “Son of Neckbone”.
IV
O álbum para quem não sabe, como eu não sabia, foi produzido por um brasileño: Mario Caldato.
V
Mas o bom mesmo é ouvi-lo. Chega de trololó.
13.7.10
eis o ponto final

I
Como diriam por aí, certo dia estava eu zapeando alguns canais televisivos pra testar a telinha nova e me deparei frente a frente no melhor estilo do simulacro com a imagem de Ziraldo com cara de vovô bonzinho. Cabelos brancos, pele morena, calça jeans e colete o bom velhinho escritor e cartunista apresentava um programa infantil.
II
Minha primeira ligação com o velhinho foi quando caiu em minhas mãos, pelas mãos de minha mãe, Meu joelho Juvenal. Daí vieram os dedos, os pés e pimba: eis que surge do autor bacaninha O menino maluquinho.
Do que mais gosto nesta história mirim? Das namoradas - quantas quantas e quantas...
III
Mas Ziraldo na televisão é decadente.
16.6.10
rodovia da uva
Garota é um troço maluco. Juro por Deus. Dia desses, ao tomar o ônibus que me levaria à escola onde leciono História, uma mocinha sentou ao meu lado. Pediu licença. E eu todo:
- Pois não, moça.
Fechei o livro que eu estudava e tal e puxei papo. Ela sorriu. O que é um estouro. Mas lá por certa altura da viagem, depois de umas cartas lançadas e do que você gosta, não é que a diabinha pôs a sua mão direita no meu pescoço ao mesmo tempo que dizia:
- Veja como está gelada.
Puxa vida, me arrepiei todinho.
- Pois não, moça.
Fechei o livro que eu estudava e tal e puxei papo. Ela sorriu. O que é um estouro. Mas lá por certa altura da viagem, depois de umas cartas lançadas e do que você gosta, não é que a diabinha pôs a sua mão direita no meu pescoço ao mesmo tempo que dizia:
- Veja como está gelada.
Puxa vida, me arrepiei todinho.
15.11.09
do que eu gosto?
Foi o que uma tia de Minas Gerais me perguntou ontem na festa de aniversário de outra tia, que completava meio século de existência. Respondi pelo simples gostar de conversar com as outras pessoas, mesmo que tal resposta nos leve a especulações inimagináveis, da seguinte maneira. Como estou num processo de muita leitura, tia, debruçado obssessivamente sobre um tema (o ser enamorado), o que mais anda me chamando a atenção, além de outros autores, é o pensamento selvagem do poeta do Pilarzinho. O pensamento, a prosa, os ensaios, os voos transparentes e não o lado sem margem do universo poético no qual seu fim é a palavra. Me identifico com o pensador feroz, utópico e apaixonado, que nos leva não só a pensar, mas agir de forma diferente, como neste trecho filosófico de Poesia: a paixão da linguagem, o qual tentarei aplicar a minha vida:
"Por que a palavra paixão está na moda? Acho que não é a paixão que está na moda, é a palavra paixão que está na moda. Como detetive, cheguei à conclusão, às avessas, de que não é que a nossa época seja muito apaixonada. Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando."
Questionando a época da sensação na qual estamos vivendo, embora o texto tenha sido escrito no fim da década de oitenta, a paixão para Leminski "parece incompatível com o tempo urbano-industrial", pois,
"a nível de performance profissional, imaginem, por exemplo, um programador de computadores apaixonado. Isso só pode conduzir a erros incríveis. Já se o sujeito trabalhar na construção civil e estiver apaixonado, arrisca-se a cair do oitava andar. É bem mais grave do que um erro contábil. Enfim, erros contábeis e cair do oitavo andar são coisas que podem acontecer a um trabalhador apaixonado dentro da sociedade urbano-industrial."
Assim, inserido em tal sociedade, cujo fim é enriquecer e pensar conforme o dinheiro depositado na nossa inteligência bancária, talvez, para efeito de entendimento, o turbilhão da cidade, de seus signos em rotações, apontem novos caminhos (os quais refazem o trajeto perdido na memória) calculados no taxímetro do automóvel, visto que tem gente que não sabe dirigir um veículo, mas sabe conduzir a sua vida.
Acho que a tia ficou perplexa.
31.8.08
[último bilhete ao telefone]
último bilhete ao telefone
que grandes amigos eu fui arranjar. o último, já nem mais ao telefone:
- cê taí, meu caro? nenhuma respiração do outro lado da linha.
nada.
mas partindo do nada que começo a perceber como tenho cultivado tudo como verdadeiro e que nunca atingi como fim aquela possível realidade. o que se conquista, afinal? ou não se conquista nada? vultos? ou o máximo que nos sobra está acomodado dentro do saquinho de veludo: um punhado de esmaecimentos afetivos: equívocos: sombras acompanhadas da passagem das horas. um risco. um esboço. um rosto. um assombro. um bafo. um.
que impressão causo para afastar as pessoas de mim tão rápido assim é o encontro? dessas pessoas com cara de cachorro. que chegam, abanam o rabo, cheiram e me desprezam. o que há contigo?, foi o que perguntaram da última vez. por que comigo? meu modo de andar? mas hoje calcei, visto aqui, ao lado da minha cama, o meu sapato mais lustroso com ponta de bico. o corte de cabelo? e aquele gel, não fica bem? deve ser culpa da minha fisionomia oca e amarronzada
ui! que cheiro, ouvi dia desses de uma moça que tapava o nariz atrás de mim na fila do restaurante.
meu reino por uma flauta feita de minha vértebra. algumas notas surdas compostas pelas cores da manhã. ou saindo de mim uma leve divagação matutina. qual foi a última vez mesmo? se ao menos o último amigo dos que não tive atendesse o telefone:
- continua aí? enfim, pergunto. persistente.
- ... - nenhuma respiração do outro lado da linha.
que grandes amigos eu fui arranjar. o último, já nem mais ao telefone:
- cê taí, meu caro? nenhuma respiração do outro lado da linha.
nada.
mas partindo do nada que começo a perceber como tenho cultivado tudo como verdadeiro e que nunca atingi como fim aquela possível realidade. o que se conquista, afinal? ou não se conquista nada? vultos? ou o máximo que nos sobra está acomodado dentro do saquinho de veludo: um punhado de esmaecimentos afetivos: equívocos: sombras acompanhadas da passagem das horas. um risco. um esboço. um rosto. um assombro. um bafo. um.
que impressão causo para afastar as pessoas de mim tão rápido assim é o encontro? dessas pessoas com cara de cachorro. que chegam, abanam o rabo, cheiram e me desprezam. o que há contigo?, foi o que perguntaram da última vez. por que comigo? meu modo de andar? mas hoje calcei, visto aqui, ao lado da minha cama, o meu sapato mais lustroso com ponta de bico. o corte de cabelo? e aquele gel, não fica bem? deve ser culpa da minha fisionomia oca e amarronzada
ui! que cheiro, ouvi dia desses de uma moça que tapava o nariz atrás de mim na fila do restaurante.
meu reino por uma flauta feita de minha vértebra. algumas notas surdas compostas pelas cores da manhã. ou saindo de mim uma leve divagação matutina. qual foi a última vez mesmo? se ao menos o último amigo dos que não tive atendesse o telefone:
- continua aí? enfim, pergunto. persistente.
- ... - nenhuma respiração do outro lado da linha.
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