15.11.09

do que eu gosto?


Foi o que uma tia de Minas Gerais me perguntou ontem na festa de aniversário de outra tia, que completava meio século de existência. Respondi pelo simples gostar de conversar com as outras pessoas, mesmo que tal resposta nos leve a especulações inimagináveis, da seguinte maneira. Como estou num processo de muita leitura, tia, debruçado obssessivamente sobre um tema (o ser enamorado), o que mais anda me chamando a atenção, além de outros autores, é o pensamento selvagem do poeta do Pilarzinho. O pensamento, a prosa, os ensaios, os voos transparentes e não o lado sem margem do universo poético no qual seu fim é a palavra. Me identifico com o pensador feroz, utópico e apaixonado, que nos leva não só a pensar, mas agir de forma diferente, como neste trecho filosófico de Poesia: a paixão da linguagem, o qual tentarei aplicar a minha vida:

"Por que a palavra paixão está na moda? Acho que não é a paixão que está na moda, é a palavra paixão que está na moda. Como detetive, cheguei à conclusão, às avessas, de que não é que a nossa época seja muito apaixonada. Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando."

Questionando a época da sensação na qual estamos vivendo, embora o texto tenha sido escrito no fim da década de oitenta, a paixão para Leminski "parece incompatível com o tempo urbano-industrial", pois,

"a nível de performance profissional, imaginem, por exemplo, um programador de computadores apaixonado. Isso só pode conduzir a erros incríveis. Já se o sujeito trabalhar na construção civil e estiver apaixonado, arrisca-se a cair do oitava andar. É bem mais grave do que um erro contábil. Enfim, erros contábeis e cair do oitavo andar são coisas que podem acontecer a um trabalhador apaixonado dentro da sociedade urbano-industrial."

Assim, inserido em tal sociedade, cujo fim é enriquecer e pensar conforme o dinheiro depositado na nossa inteligência bancária, talvez, para efeito de entendimento, o turbilhão da cidade, de seus signos em rotações, apontem novos caminhos (os quais refazem o trajeto perdido na memória) calculados no taxímetro do automóvel, visto que tem gente que não sabe dirigir um veículo, mas sabe conduzir a sua vida.

Acho que a tia ficou perplexa.