5.6.08

[Dos grandes pensadores]

[Friedrich Nietzsche 1844-1900]


POR QUE SOU TÃO

INTELIGENTE

1.

- Por que sei algo mais? Por que sou enfim tão inteligente? Nunca refleti sobre problemas que não o são - não me desperdicei. - Autênticas dificuldades religiosas, por exemplo, jamais experimentei. Escapa-me inteiramente o quanto deveria sentir-me "pecador". Desconheço igualmente um critério confiável para [definir] o que seja um remorso: pelo que se ouve, não me parece coisa respeitável... Não gostaria de abandonar uma ação após tê-la cometido, preferiria deixar o mau resultado, as conseqüências, radicalmente fora da questão do valor. Quando as coisas resultam mal, perde-se muito facilmente o olho bom para o que se fez: um remorso parece-me uma espécie de olho ruim. Honrar mais ainda dentro de si o que dá errado, porque deu errado - isto sim está de acordo com minha moral. - "Deus", "imortalidade da alma", "salvação", "além", pura noções, às quais não dediquei atenção nenhuma, tempo algum, mesmo quando criança - talvez não fosse infantil bastante para isso. - Não conheço em absoluto o ateísmo como resultado, menos ainda como acontecimento: em mim ele é óbvio por instinto. Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores - no fundo até mesmo uma grosseira proibição para nós: não devem pensar!...

[NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Ecce homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 35]