E aí, como andas? Recebi sua carta, sabia? Dia desses. Estamos todos tristes por estas bandas afetadas pela crise, eu bem sei. Você notou como o preço do gás aumentou? E o arroz? O feijão preto? O café a que custo compramos? O pão francês passou a ter gosto de chumbo. Uma pedra para cada mão. Mas quem atira primeiro? Não é que alguém nos calunia, ou serão percepções de uma mente atormentada? Sabe que outro dia bateram batido na minha porta, talvez ontem. Anteontem. Quem poderia ser, dispara, não é?, o coração. Por que as pessoas necessitam desaparecer sem deixar rastros? A sina calcinada na carne? Qual foi mesmo último filme que viste? Aquele da década de 1930, imagino. Ei!, vou ter de me despedir porque o tempo das horas, o tempo... você sabe. Apareça qualquer dia para conversarmos, tenho algumas idéias frutíferas ou podemos nos reencontrar e consumar de vez aquele pacto: você corta aqui, e eu aqui. Nossos corpos estariam, assim, talhados em carne em cheiro e em suores. O estilo, a metáfora, o niilismo façamos o seguinte, guardemos dentro de nossas mentes porque são elas que não se entendem. E os corpos, se não forem de vidro, quem sabe.
