25.10.10

da contemporaneidade

[Cena do filme homônimo]

[...]


Inferninho observava seu corpo colado no vestido molhado da água do rio. O bandido pensava em saborear aqueles lábios vermelhos e grossos, tinha vontade de agarrá-la e fazê-la gozar ali mesmo, entre a lua cheia e o mato. Iria meter devagarinho, chupando aqueles seios cheios, depois subiria para a boca, escorrendo a língua mansamente pelo pescoço, lamberia as costas, as coxas, a bundinha, o grelinho dela. Enfiaria a língua em seu ouvido e, ao mesmo tempo, aumentaria o movimento do quadril dando bombadinhas compassadas pra ela chamá-lo de tarado, gostoso, safado. E meteria por trás, pela frente, de ladinho, ela por cima, por baixo. Não iria querer nem Deus o ajudasse. "Duvido que ela não goze um montão de vez", pensou Inferninho. Mas não, não podia estar pensando aquilo, Cleide era mulher de amigo e, afinal de contas, nem tinha dado bola pra ele. Era um gado responsa, que adiantava o lado de todo mundo, e Martelo era um cara maneiro, mas se ela abrisse a guarda um pouquinho ele não perdoaria e crau!

[...]

- Seu marido não te chupa, não? Ah, minha filha... Você não conhece as coisas boa da vida. Antes do meu meter, tem que cair de língua uma meia hora. E no cu? Você não deixa ele colocar no teu, não? Você não sabe o que é bom. Nas primeiras vezes dói, mas depois vai que é uma beleza. Você pega uma banana, esquenta ela um pouquinho, enfia na xereca e manda ele colocar atrás. Parece que você vai voar. Você já fez carrossel? Saca-rolha? Trenzinho? Funil? Dedinho? Meia nove? Tapadinho? Enrola-enrola? Entupidinho? Suga-suga...?

[LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 38 e 117]

21.10.10

valor e cultura

XVI

A insatisfação de começar uma frase faz de você um escritor.


16.10.10

o que é a democracia?



[Marilena Chauí - 13 de outubro de 2010]

[...]

Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.

[RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 34]

15.10.10

e agora?


Tenho piolhos. Acho eu. Parece que sinto insetos sob o meu couro percorrendo sobre os miolos. Como coisa abstrata.
Lembro de minha tia Joana dizendo para a avó, ao fuçar com as unhas no meio do cabelo melado de vinagre e coca-cola, "não há nada aqui, Dona Maria. É psicológico."


12.10.10

sobre transar e ensinar


[...]

O ato de enfiar o dedo é mais que expressão do desejo de conhecer. É gostoso enfiar o dedo. Todo o mundo sabe da função erótica do dedo. Existe uma analogia entre dedo e pênis. Até as crianças já fazem aquele gesto obsceno. O dedo é um dos nossos órgãos sexuais.

Quando eu era menino, sem saber nada sobre sexo, gostava de descascar as mexericas para, depois, enfiar o dedo no buraco fechado e apertado do meio dos gomos. Era delicioso, meu dedo enfiado apertado, no obscuro buraco da mexrica. Um menininho foi humilhado por duas menininhas. Quando elas o viram com o pintinho de fora fazendo xixi, caíram na risada: "É igual a um pepininho!" Ao que ele retrucou: "E vocês, que o que têm são dois gominhos de mexerica"! Bom observador, o menino; sua imaginação já conhecia através de analogias.

[...]

... A fala é fálica. A palavra é pênis. Masculina. No silêncio, é como se não existisse. Mas aí ela toma forma, cresce, se alonga em busca de um ouvido. Que seria da palavra sem o vazio do ouvido que a acolha? A palavra deseja penetrar o ouvido. O ouvido é um vazio. Ele recebe. É feminino. Vaginal.

[...]

... Ereção, como é sabido por todos; é o estado do pênis, contrário a sua condição de flacidez. Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras, urinárias. Frequentemente os homens se envergonham dele, em decorrência do tamanho, que julgam pequeno. Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar prazer e fecundar. Um pênis ereto é uma promessa de amor e uma possobilidade de vida.

[...]

O pênis em ereção está procurando. Ele ainda não encontrou. Por isso sofre. A inteligência em ereção é também uma procura; ela não tem ainda.

[...]

Diferente do pênis ereto, o útero é o vazio onde se depositam sementes. Lá o sêmen não fica sêmen. Ele se encontra com o óvulo que estava à espera. E aí uma coisa se inicia, indiferente de tudo o que houve no passado. O útero é lugar de criação, onde o novo é gerado. A mente é como o útero: nela o pensamento procria. É nela que se geram os poemas, a literatura, as obras de arte, as invenções, as teorias científicas.


[ALVES, Rubem. Ao professor, com o meu carinho. Campinas, SP: Verus Editora, 2004. p. 15-29]


8.10.10

de situações


A tábua improvisada servia de banco na espera do bonde. João estirou as pernas. Viu seu sapato puído. Somou as moedas e acendeu um cigarro - como de costume. Banalmente, João olhou um menino empinar pipa, um cachorro... que... quase...

- ai!

foi atropelado.



1.10.10

namorados

[Henri Cartier-Bresson]

[...]

Afinal, namorados, junto com os pardais são o único encanto lírico que ainda resta nesta cidade que cada dia vai ficando mais áspera.
Já não temos café sentado, nem sala de espera em cinema, nem salão de chá com orquestra; já não temos retreta de coretos de praça - nenhuma dessas doçuras antigas. E o que seria de nós, então, depois do duro dia de trabalho, quando voltamos exaustos para casa, se na fila de lotação não nos distraísse o gentil descuido dos namorados, ou se dentro dos ônibus, onde os homens empurram as mulheres, apanhando o lugar sentado graças à lei do mais forte, onde na hora de atender ao assobio insolente do trocador constatamos como está magra a carteira - que seria de nós se, pela janelinha do veículo, não avistássemos o casalzinho amoroso que conversa bobagem sob as amendoeiras da Praça Paris - e nos lembra que, apesar da deformação das criaturas e das misérias da vida, este mundo não é de todo ruim?


[QUEIROZ, Rachel de. O brasileiro perplexo. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963. p. 177-180]