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24.8.19

nazitiba


No lançamento dos livros da Djamila Ribeiro e da Joice Berth, que aconteceu dois dias atrás na BPP, só para não cair no esquecimento, alguém no meio do auditório lotado disse em alto e bom tom: vocês estão na capital mais racista do sul do Brasil.

Para nossa sorte, há outros olhares críticos na "cidade linda e amorosa". 

26.10.18

a arte de viver para as novas gerações


A doença mental não existe. É uma categoria cômoda para agrupar e afastar os casos em que a identificação não ocorreu de forma apropriada. Aqueles que o poder não pode governar nem matar são rotulados de loucos. 
Raoul Vaneigem


18.6.18

rumo ao apocalipse com uma catraca na porta de entrada

no te olvides grita todavia
este mundo es injusto

Benedetti

Se há um assunto que não se pode negar é a de que Paulino Júnior já integra o time dos bons cronistas armando as letras para o contra-ataque. 

Sem ignorar os problemas da esfera pública (leia-se por exemplo: Paisagem infestada) e muito longe de relatar as ações dos paladinos da justiça, Paulino lida com as vicissitudes mais pessoais. Na labutaria crônica do ficcionista, o miúdo da vida ganha ares de ironia, leveza e humor. Mas atenção, onde “cada pessoa com um carro na rua é como um revólver na mão de macaco”: a fantasia do folião é “uma bala perdida no meio da multidão”. Neste universo ninguém quer nem mesmo um Papai Noel humano. 

A exemplo de divertimento, veja-se O ponto e o ônibus e Economia de energia. Divertidíssimos.

Lembrando Antonio Candido, em A vida ao rés-do-chão, tudo é motivo de experiência e reflexão. Para este último requisito, valem as observações do espaço urbano que tiraniza o sujeito amoroso. 

Tomando o automóvel como objeto de estudo, podemos pensar na organização da vida nos países capitalistas em torno desse fetiche.  

Consciência e autocrítica aparecem em Errada demais. Orora seríamos nós? 

Das narrativas mais cruéis, Solução Final representa o mundo cão que faz da crônica, a princípio comprometida com um instante fugaz, perdurar na cabeça do leitor como um alerta: “Vivemos em tempos perigosamente cínicos.” Tão cínico que o cartão-postal da Ilha da Magia exibe a natureza em estado de exploração e descarte. Mas o que seria esta sujeira para as pessoas de bem que só querem ver mansão? A ironia, neste ponto, reside na utilização da linguagem publicitária em forma de protesto. 

Descartando a possibilidade do autor estar com os pés na lua, Antonio Candido sintetiza a importância da literatura como sensibilização: 

fica perto de nós. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. [...] Sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava.

Porém, precisa da urgência de um Joe Strummer. Aliás, o cronista continua incisivo, artista deve ter mais de Cólera e menos de Paralamas do Sucesso.

Contra a maquinação reacionária do esquecimento, a reunião das crônicas não nos deixa esquecer a lama tóxica expelida pela mineradora Samarco. Sua crítica é severa e contundente. Cito: 

defender interesses de grandes empresários como se eles fossem as galinhas dos ovos de ouro, é a maneira mais direta para se chegar a catástrofes deste nível. Ruim sem eles, pior com eles. A única sustentabilidade que interessa à iniciativa privada é a do lucro – make Money. Ou será que, numa reunião de cúpula, a planilha discutida é sobre a qualidade de vida dos trabalhadores e a preservação do meio ambiente? 

Mas se os grandes empresários só têm olhos para o lucro, é o Dr. Bakunin, na excelente paródia de Pneumotórax, de Manuel Bandeira, que paradoxalmente cirúrgico diagnostica o problema do proletariado alçado ao poder nas condições burguesas:

deixa de ser trabalhador para se tornar homem de Estado e, por essa via, torna-se burguês e corre o risco de ser mais burguês que o próprio burguês.

A vida infernizada pela maquinaria barulhenta, administrada por gestores, onde as pessoas são reconhecidas pela marca do carro orbita na lógica do sistema de transformar a existência em negócio.  Parafraseando o autor, qual será a próxima etapa da evolução humana? Matar uns aos outros por uma ocupação no mercado de trabalho? 

Nesta antologia, camarada, não há espaço para virtudes.



7.6.18

adendo


MOTIM E DESTITUIÇÃO AGORA é um ótimo livro, mas escrever que os amos sempre foram, em seu mais profundo íntimo, anarquistas, foi, no mínimo, nem provocador, mas calunioso.


30.5.18

chanchada política


Os historiadores já preparam os seminários sobre a lata de lixo da historia?

26.5.18

mai 68



No Parti Pris número 4 (Student Publication — Comité d'action étudiants-ouvriers de la Faculté de Droit), lemos no último parágrafo:

La lutte contre le pouvoir et l'Université burgeoise continue!

Essa seria uma verdadeira luta contra o sistema, mas os usuários de facebook preferem agir como gilipollas.


23.5.18

desonestidade intelectual?



Em 2013, Marilena Chauí, em palestra na Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, chamou os black blocs de fascistas.

Cinco anos depois, a especialista foi chamada para debater o lançamento do livro "Maio de 1968 - A brecha".

Isso - no mínimo - é incoerente pacas!


26.2.18

perguntas básicas para a "classe docente" e outros "funcionários da educação"


Quais são os problemas que enfrentamos? 
Desvalorização da profissão?

Como nos entendemos como classe?

Não temos consciência de classe?

Quais são as transformações a serem feitas?

Organização de classe e prática de leitura?

Mas como reeducar os educadores em uma sociedade de estrutura autoritária, estrutura essa que permeia a secretaria de educação, a mentalidade dos diretores e o comportamento das pedagogas? 

Como reeducar os educadores que não praticam a leitura? 

Tarefa espinhosa.


27.9.17

conformistas


Os intelectuais conformistas são aqueles que fazem o jogo da direita. É como culpar a esquerda (que não sabe dialogar (sic!)) pela censura da exposição artística. Quem não sabe dialogar, porque tem a consciência bancária, é a direita.

Os intelectuais conformistas têm de parar de responsabilizar a esquerda pelas cagadas da parcela da população brasileira fabricada pela comunicação de massa que está pronta a servir qualquer interesse da direita.

A direita faz aquele jogo de provocar sistematicamente para desestabilizar os militantes contestatários. É praticamente igual às perseguições metodológicas, os assédios morais, os constrangimentos ilegais exercidos pelos aparelhos ideológicos do sistema educacional sobre os educadores críticos.

E daí, rotula-se facilmente quando algum militante perde a razão, como é costume dizer.

Ninguém "perde a razão" quando os vermes estão cavando o buraco ao seu lado. Ninguém "perde a razão" quando os parasitas estão chupando o seu sangue. Ninguém "perde a razão" quando os abutres ficam em cima do seu ombro. Ninguém "perde a razão" quando as cadelas do fascismo estão a querer um pedaço da sua carne.

"Perder a razão" é o corpo respondendo a brutal violência psicológica e social.


4.10.16

situação nenhuma ambígua


A filosofia original do punk era, para mim, antes de tudo, lutar contra a merda toda qui’taí. Por exemplo: televisão, álcool, carros e ser fodão.

Punk era fazer da vida um protesto.


3.9.12

A cigarret, please


Os estudos de proposições a que muitas vezes se limitam os estudantes de filosofia se tornaram, na concepção contemporânea, um fetiche. A verdade de uma teoria não é a mesma coisa que sua fecundidade.

Gramaticalizar um pensamento a respeito de um ser abstrato, como por exemplo, Deus existe, não pode ser considerado um texto coerente para toda e qualquer pessoa.

Um pedaço de frase foge contextualmente. Pois temos o leitor e a pessoa que pronunciou a frase inseridos numa sociedade. Duas palavras não encerram a realidade. Não podemos catequizar o mundo; tal disparate é caduquice.

É como se discutissemos a grande questão da origem. O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

 

16.5.09

é ou não é?

[Os amantes, de Rene Magritte, 1928]

Eis aí a versão repressiva de Eros e Psique: dois seres, enclausurados num cubículo e em suas vestes, sem corpo e sem rosto, enlaçados pelas convenções. Encontro sem contato (as bocas não se beijam, beijam trapos) e sem intimidade, pois, no cubículo fechado e sob os panos que cobrem seus corpos e rostos, se descobre a presença da sociedade inteira, vigiando e controlando o pobre par.

[Marilena Chauí]


**

O verdadeiro intercâmbio de experiências, neste mundo cheio de desamor chamado Curitiba, está concentrado na leitura dos livros.



16.7.08

[Pequeno sonho]

[The piramids in the sea, de Paul Nash, 1912]


[Pequeno sonho]

Estávamos eu, o Jeferson e o Cigano sentados numa mesa branca de um bar. Este último amigo tinha uma pinta do lado esquerdo da boca, detalhe que nunca havia observado; aquele, como era de se esperar, terminava por demais sentimental quando bebia. Havíamos tomado um bocado. Um porrete. Mas Jeferson e Cigano ainda assim queriam fumar um baseado. Eu relutava pelo estado em que me encontrava. Ao pé da minha cadeira, apoiei a minha mochila. Dentro dela havia uma câmera fotográfica e um livro do Antonio Torres, objetos com os quais saira hoje à tarde. Meu tio Nelson apareceu e se dirigiu ao bar. Tempos depois, ainda com o Jeferson e o Cigano lamentando por não terem sequer um fino, meu tio Nelson reapareceu. Por que eu não conversava com ele era o que mais me intrigava. Um outro tio, dono de um bigodão, algo que me lembrava o Antonio Bandeiras atuando no filme Átame, surgiu com três jovens da mesma altura. Não os reconheci, mas tive a leve sensação de que eram meus parentes. O tio Nelson abriu uma porta de ferro pela qual passaram os quatro. E se virou para nós e perguntou: "Quem de vocês se responsabilizou em ficar sóbrio? É preciso sempre alguém ficar com o juízo alerta." Olhei para ele antes de ir embora, e me perguntei novamente por que diabos eu não estabelecia um diálogo e por que ele não me reconhecia como sobrinho. A porta de ferro continuou aberta e dava para uma rua. Foi neste momento que o Cigano se levantou e apontando para fora disse: "Olha lá". Meu outro tio que acabara de passar pela gente estava cercado por outros homens que o espancavam. Descarrilhei feito um louco com desejo de briga. E gritei: "Meu tio, não, cambada de filha da puta!"
Acordei instantes depois, mas permaneci de olhos fechados repetindo mentalmente que era um sonho, era um sonho. Foram minutos de um certo pavor.